sexta-feira, 24 de setembro de 2010

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De ti o medo que partiu
infinito e só
nascer enlaçada a ferro

de ti se parte
além do sonho
acordada em transe

de mim dou
o íntimo invisível
o lugar invertido

nas estacas cravadas
nos cadáveres vivos
na desordem dos favos

ainda sobre penas
sobre o mar
um estranho acessível

visita os cômodos
abertos da noite
a bailarina e as borboletas

aqui deste lugar cego
em volta da lâmpada em brasa
os pés fincados no espaço.


Josi Gui

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

a beleza não deixa órfãos, vai
onde bater sol está na roça
preparando as sementes
de feijão e milho nos calos
no foco Sebastiães Salgados

está no caramelo do corpo
que desliza e rastreia a areia
na praia no som que embriaga
dançarinos ateus e freiras

até na dor do parto
a beleza se esconde no sangue
para escutar o grito de dor
para estourar os miolos

derrete fibra por fibra
seus fios soltos de luz
saltam girando girando
em volta da língua nos olhos

uma pequena libélula zanzando
ao redor da barba
da fotografia antiga
do futuro

é a esperança desdentada
de sair donde não habita em si
é um bisturi que invade a epiderme
para sair  da pele, desenhar

a chuva limpa a casa, sacode
serpenteia janelas, deslizo
expulso vinte vem mais cem novos
e apenas um exímio louco me devora.
......
j. gui

domingo, 5 de setembro de 2010

a voz que me tateia

Não devoras quem te vê?
língua de saliva acre
tua besta e teu espelho
são melhores que as corujas
que me visitam
meu declínio se assemelha
ao remar de Wagner
depois de páginas e páginas
de desesperar as arcadas
a janela ouviu e arrebentou-se
morte e vida serventia
partiu o prisma de Deus ou do Diabo
em mim os dois estão despertos
abertos no céu da minha boca
batem papo e brindam juntos
aos meus pés
trepo com os dois
noite e dia
nada mais falta nem resta
só em mim
caminham multidões nus
como nasci.

A loucura cuida
do sono.


...
J. Gui

sábado, 4 de setembro de 2010

Fios.

Linhas
corretas
pontes
sobre
nossas
dúvidas
dúvidas
pretendem
as
linhas
linhas
costuram
os passos
passos
adiantam
ou atrasam
a rota
respostas
da
tragetória
conduzida
ao ponto.

...
Gui

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Um passo a frente do mesmo lugar

Saiu de casa certa que a hora era aquela. Que o dia era aquele. Estava até ligeiramente atrasada. Apressada vestiu-se, perfumou-se e foi no sol borrachudo do horizonte mole.
No sinal da encruzilhada do quinto quarteirão parou.
Sinal abriu.
Não passou.
Percebeu num olhar giro matrix mental 360º que: A mulher no outro lado da esquina descascava laranjas despreocupadamente sentada com o suor escorrendo na testa cintilante, prateada.
Do lado esquerdo um garoto i-mundo abaixava-se para pegar umas moedas que um sujeito torpe que acabara de passar rasteiro fedendo a axilas ardentes jogou pra ele apanhar.
Sentiu raiva do sorriso do moleque. Sentiu também da mulher negra e gorda sem nada mais a fazer do que ficar chupando laranja e derretendo com o chão mole.
Olhou o relógio do celular, faltavam 15 minutos e uns 7 quarteirões pela frente.
Sinal aberto.
Ela.
Imóvel há uma fração de tempo inesgotável.
Era então um balão cheio de ar solto na atmosfera delirante.
Era uma seqüela da vida moderna em transe.
Era uns cem mil amores infundados e retirantes.
Era o deserto dentro de um oásis de sonhos.
Era o absurdo lugar ao sol enquanto gente.

Um motorista de um carro verde desacelera, está na contra-mão , passa em sua frente , olhos acompanham-se por alguns segundos, tempo suficiente para ele dobrar a esquina. Seus olhos transpassavam vulgaridade. No banco de trás uma criança dormia.
Sentiu o vômito chegar na garganta e olhou a tempo pro outro lado, onde o moleque há pouco pegava do chão moedas desprezadas. Ele acabara de saquear uma barraca de doces. Encheu a mão de confeitos e se foi correndo. Igual ao moleque que roubava doces ela também roubava poesia para haver sentido continuar aquele caminho.
Ela sorriu e perseguiu com o olhar até onde ele conseguiria ir. Foi com ele até onde seus olhos não o acharem mais.
O dono da barraca jurou que iria pega-lo um dia.

Enquanto essas coisas se passavam , ela em sua analogia retumbante e serena se percebia por inteira. Do calo do dedo mindinho ao suor que escorria em sua face, que era igual ao da mulher do outro lado da rua. Ela corria quilômetros de ruas da cidade fantasma que era ela mesma.
Repleta de casas grandes e vazias, ela se transformava lentamente na cor vermelha do sinal de trânsito. Na cor verde do carro que passou. Na cor amarela da laranja que a mulher derretendo chupava.
Ali , parada e consciente, ela enfim completou sua metamorfose e líquida se foi no bueiro a um passo de seus pés.

...

Jo Gui

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Irã

Ainda assim estará
aberto ao poente a força
os dentes sadios
a saliva intacta
o amor no escuro

Ainda assim
a febre do sol
os favos bem feitos pro mel
o puma manhoso
na noite desabitada

Ainda vão ficar
os esqueletos no asfalto
os vagalumes nas ruas
os girassóis no inverno
os trovões a cantar agudo

O que mais há?
dessa voz a me burilar
mil vezes
não me abandones
mil vezes entre as pernas
mil balões em minhas vísceras

Guilhotinas a meia-luz
cova aberta
axilas ao chão
cabeça erguida
a espera das pedras.

...

Jo Gui